06/09/2004 

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Cemitério inglês para baiano ver 


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Espaço onde estão sepultados britânicos, na Ladeira da Barra, será restaurado e aberto à visitação pública

MARY WEINSTEIN

Atravessar os portões do século XIX que separam o Cemitério dos Ingleses do mundo dos que passam pela Ladeira da Barra vai sair do plano da imaginação. Além da brisa que vem do mar e do clima que remete a grandes descobrimentos, há um ar de mistério, especialmente porque poucos entram ali e sabem como é atrás do muro que corre entre o Iate Clube e o Outeiro de Santo Antônio da Barra. Muitos dos que entraram, ficaram: protestantes (ingleses, escoceses e americanos) e judeus (de várias partes da Europa) que, no passado, não podiam ser enterrados nas igrejas dos católicos. Os cemitérios só começaram a existir regularmente em Salvador décadas depois daquele dos ingleses, por motivos sanitaristas, por medo das pestes. 

Daqui a um ano e meio, este Cemitério da Ladeira da Barra deverá ser aberto à visitação pública. Está sendo restaurado para isso e para manter a memória dos ingleses na Bahia. Ao todo, foram mais de 550 enterros feitos, possivelmente, a partir de 1813, no cemitério encravado na meia-encosta. As 450 tumbas ainda existentes estão espalhadas pelos três mil m² que, até 1814, pertenciam à Igreja de Santo Antônio. O lote foi repassado para a comunidade britânica pelo Conde dos Arcos, governador da Bahia.

Para o cemitério, a paz e a vista da Baía de Todos os Santos vão ser definitivas, eternas mesmo. Foram garantidas por um tombamento em nível estadual, pedido em 1987 e decretado em 1993. Por conta dele, ninguém poderá roubar o visual dos túmulos plantados ao longo de quase dois séculos. O último deles é de 1999. E não há nada que impeça que novos sepultamentos sejam feitos – há espaço para mais 100.

Para restaurar este, que é um dos poucos cemitérios marinhos existentes no Brasil – como o descrito pelo poeta Paul Valéry, em poema traduzido pelo também poeta e diretor do antigo Serviço de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Sphan), Godofredo Filho –, vão se gastar R$ 983.940,07. Serão recuperados os dois patamares básicos que sustentam as sepulturas, muros de contenção, uma escadaria e a casa que antes serviu de capela. “Os túmulos passarão pelo mesmo processo de restauração de qualquer outra coisa. Muitos têm valor artístico altíssimo”, informa Ernesto Carvalho, arquiteto responsável pela restauração a qual serve como tema para sua dissertação de mestrado na Faculdade de Arquitetura da Universidade Federal da Bahia.

No Brasil, há pelo menos mais dois cemitérios de ingleses: um em Recife, de 1814, e outro no Rio de Janeiro, de 1811. O baiano, na Ladeira da Barra, também de 1814, depois de várias décadas à espera de recuperação, está sob “contrato de parceria” com a Fundação Mariani.

Fundação patrocinará a restauração

“A gente via o estado de abandono e ficava com o coração partido pela falta de conservação. Evidentemente, temos uma preocupação com a cidade. Já tinha acontecido o caso do Chez Bouillon (há cerca de dez anos, este restaurante cedeu espaço a um prédio na Ladeira da Barra) e havia o medo de aparecer um novo empreendimento imobiliário ali”, disse Maria Clara Mariani, filha do ex-ministro Clemente Mariani, que, quando está na Bahia, mora na mansão em frente ao próprio cemitério.

Há cerca de dois anos, Maria Clara atravessou a rua e foi ver de perto as tumbas quebradas, o limo grudado nas lápides, o brilho do granito ofuscado e o mato escondendo belas esculturas, algumas trazidas da Europa por parentes dos mortos. Como representante da Fundação Clemente Mariani, se integrou à iniciativa de garantir a sobrevivência do cemitério.

Entusiasmado com a recuperação do valoroso sítio histórico, o cônsul honorário da Grã-Bretanha e presidente da Sociedade da Igreja de São Jorge e Cemitério Britânico, Nigel Lee, diz que a restauração chega em boa hora e que nunca tinha sido feita por falta de dinheiro. Maria Clara explica que, de acordo com o contrato firmado, o lugar passa a ser uma servidão com o compromisso de que não haja nenhum empreendimento imobiliário. “É bom criar uma consciência de que a cidade é para ser cuidada”, diz. 

Os recursos para a restauração do Cemitério vêm 55% (R$ 541.167,04) da renúncia fiscal proporcionada pelo governo estadual por meio do FazCultura e 45% da Fundação Clemente Mariani, com doações de outras duas empresas do grupo – Engepack e Latapack-Ball (R$ 221.386,53). 

Portos abertos a nações amigas

O príncipe regente D. João abriu os portos às nações amigas, em 1808, o que propiciou a chegada de novas influências estrangeiras. A inglesa trouxe notáveis acréscimos à cultura baiana e transformou, inclusive, o desenvolvimento urbano de Salvador. A Ladeira da Barra, por exemplo, recebeu o traçado atual, desenhado pelo reverendo britânico Edward Parker, nesta época, para que carroças pudessem trafegar por ela. O Cemitério dos Ingleses, de 1814, passou a formar com o Forte de São Diogo, com a Igreja de Santo Antônio da Barra e com os casarões da Vitória (muitos deles ocupados por ingleses no século XIX), um corredor com características histórico-culturais.

O atual projeto de restauração para o Cemitério dos Ingleses, de autoria do arquiteto Ernesto Carvalho, inclui as sepulturas e o prédio onde era a capela - onde faziam-se orações, velórios, batismos e outras sagrações. Nela será o futuro Centro da Memória da Comunidade Inglesa na Bahia, que hoje conta com cerca de 130 pessoas. 

A antiga capela tem influência da arquitetura vitoriana. Originalmente, com dois pavimentos e um porão alto virado para o lado do mar, voltará a ter esta configuração. Reaparecerão as colunas, atualmente escondidas. Os ingleses foram autorizados a praticar a religião protestante desde que não construíssem templos parecidos com os católicos. Teriam que fazer seus templos em outros estilos arquitetônicos. A capela da Ladeira da Barra tinha o estilo de um templo grego. A construção foi muito alterada e descaracterizada por adições executadas sem critério de preservação.

Muro retratado em pinturas

“Aquele muro é histórico, está em todas as fotos, em todas as aquarelas”, explica Maria Clara Mariani para justificar a sua não-derrubada, contrariando a sugestão feita por gente que quer ver o cemitério e a vista que ele tem quando descer ou subir a Ladeira da Barra. Ela explica que tem muitas sepulturas encostadas no muro, além dos walltablets, que são placas incrustadas, as quais imitam uma lápide, mas que pode ser só uma homenagem a quem morreu e cujo corpo não foi encontrado. É no muro que está, por exemplo, a homenagem aos trabalhadores que morreram de febre amarela durante a construção da São Francisco Railway, pelos ingleses.

“Em termos históricos achamos muitas coisas interessantes”, diz a pesquisadora Sabrina Gledhill, uma brasilianista inglesa, pós-graduada pela Universidade da Califórnia (Ucla), residente em Salvador há 18 anos. O túmulo que ela acha mais bonito é o de um escocês, Edward Pellew Wilson, que saltou de um navio do tipo brigue – com casco de madeira e velas. Ele adorou Salvador e por aqui ficou por 68 anos. Começou a importar carvão, que era combustível para trens e navios, e enriqueceu. A empresa que ele fundou, a Wilson, Sons, Co. hoje é 100% brasileira. Está sediada no Rio de Janeiro e trabalha com comércio internacional. Tem rebocadores e navios de carga.

Mulher que chora sobre o túmulo

O túmulo de Pellew Wilson é decorado com a escultura de uma mulher sentada chorando. É em mármore de carrara, estilo típico da escola neoclássica do século XIX, informa o site do cemitério. O mais interessante, no entanto, é que foi Edward Pellew Wilson o primeiro proprietário da casa que um século mais tarde foi transformada em Casa Cardinalícia (Campo Grande) pelo cardeal Augusto da Silva, com o dinheiro da derrubada da Igreja da Sé, em 1933, para a passagem do bonde. 

A pesquisa promovida a partir da restauração do cemitério acabou revelando que a casa – hoje totalmente remodelada por dentro, transformada em uma espécie de clube social para os futuros moradores do Edifício Morada dos Cardeais, de 38 pavimentos, e por fora, em seu entorno –, além de ter abrigado todos os cardeais arcebispos primazes do Brasil, até D. Lucas Moreira Neves, e por duas vezes o papa, é, no mínimo, do meado do século XIX. A pesquisa está apenas começando e novos dados ainda poderão ser obtidos.

Edward mudou-se para a casa no final da década de 30 do século XIX e morreu nela dois anos antes da Proclamação da República, em novembro de 1887. Os filhos dele, já ricos, mudaram-se para o Rio de Janeiro. O Edward Filho teve que sair do País porque era declaradamente monarquista. Ele só lia jornais em inglês e não percebeu as mudanças políticas que se processavam no País. Teve todos os seus navios confiscados. Anos depois, voltou para o Brasil apenas para morrer. Está enterrado no Cemitério São João Batista, no Rio de Janeiro.

Serviço

Em um ano e meio, as tumbas do Cemitério dos Ingleses poderão ser visitadas, assim como a antiga capela do lado direito, onde ficarão expostos documentos, fotografias e objetos em geral – uma memorabilia da Colônia Inglesa na Bahia. A pesquisa e a restauração do cemitério estão apenas começando. Quem tiver informações sobre pessoas enterradas ali pode entrar em contato com a equipe pelo site www.5star.com.br. 

 
 
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Site do Projeto Cemitério dos Ingleses