História 

Caminhos da cidade

Ernesto Carvalho

A história do Cemitério dos Ingleses liga-se intimamente à história da Ladeira da Barra. Para uma melhor compreensão deste sítio na cidade, é preciso entender, antes, duas questões de grande importância: a primeira nos remete a um problema existente desde o tempo da colonização, que era a questão dos acessos e transportes entre a parte alta e a parte baixa da cidade – e, por conseguinte, a associação inevitável e imprescindível com a história da Ladeira da Barra. A segunda reside em um plano mais estratégico e econômico elaborado entre as cortes de Portugal e Inglaterra – os tratados de 1808 de abertura dos portos às nações amigas, o que, obviamente, gerou uma maior presença de elementos desta última comunidade aqui no Brasil.

A expansão física da cidade no século XVII, com seu centro administrativo bem desenvolvido, e a posterior perda do título de capital do País, em 1763, torna o clima interno brasileiro um tanto confuso, pois, a despeito disso, Salvador continuava sendo detentora do poder portuário e religioso no continente.

Esse estado de espírito fica ainda mais acentuado com a abertura dos portos às nações amigas no século XIX, uma vez que Salvador dominava os eixos comerciais tanto internos quanto externos. É justamente nesse período que acontece um grande investimento em obras com eventos importantes para toda a cidade. Esta se revitalizava de acordo com modelos europeus, ganhando ares mais civilizados e condizentes com a sua importância econômica.

É a chamada fase das grandes obras, com reflexos importantes para a cidade nos mais variados aspectos, desde o urbano até o social. Datam desta época a construção da Ladeira da Montanha (de aspecto mais moderno e de acordo com o novo traçado urbano vigente), a contenção da Montanha (iniciativa para tentar dar fim aos trágicos e notórios desabamentos desta encosta da cidade) e a reforma da área da Cidade Baixa para tentar dar uma resposta mais civilizada e eficiente a uma área tão criticada quanto insalubre na época, a construção da San Francisco Railway (terceira estação de trens do Brasil), executada pelos ingleses, e a construção dos parques industriais ao longo da península de Itapagipe.

Passagem do bonde – Ainda no final do século XVIII, o acesso que ligava a Igreja da Vitória e sua freguesia até a região do Porto da Barra e Forte de São Diogo possuía o antigo traçado, com a forma das curvas de nível originais, sem qualquer interferência artificial na paisagem. Mas era preciso que o bonde e o animal carregado tivesse condição de fazer o transporte de mercadorias por todo o declive. É por isso que se fez a Ladeira da Barra com a forma que se apresenta ainda hoje.

Também devemos entender o contexto da época e seus personagens, a exemplo da figura do proprietário da Companhia de Transportes Econômicos, e a população que morava no local, e a interação entre os dois impérios (o português e o britânico). A partir de 1810, a presença inglesa na Bahia foi intensa – no comércio, nas modas, nos modos e nos costumes. Os tratados de 1810, que foram um desdobramento corolário da Carta de 1808, trouxeram para o Brasil, especificamente para a Bahia, um processo civilizatório muito intenso vindo da Inglaterra. Desde a construção de pontes no vale do Paraguassu, passando por novos planejamentos urbanos, até a importação de produtos do cotidiano, como manteiga e fósforos. A própria religião anglicana foi introduzida a partir do começo do século XIX e se intensificando até o final deste mesmo século. Tão forte foi essa presença que, em um estado em que era oficial a religião Católica Apostólica Romana, a comunidade inglesa teve a permissão e aceitação de fazer a sua igreja nos moldes da arquitetura de templo anglicano, de grandeza arquitetônica, situada no Campo Grande, onde a presença de indivíduos de origem britânica era de tal ordem, que uma parte do bairro passou a se identificar como o Banco dos Ingleses.

Liderando essa comunidade, estava o reverendo anglicano Edward Parker, figura que terminava por aliar os seus ofícios de natureza religiosa ao trabalho cotidiano de empreiteiro de obras. Ele mesmo teria sido o empreiteiro da urbanização do Campo Grande, de conformação típica de jardim inglês (como mostram diversas fotos da época), com grandes extensões gramadas e quase sem árvores, para o desencanto daqueles que gostam de pregar, nos dias de hoje, o aspecto “colonial” das mesmas árvores.

Mas não foram só as obras do Campo Grande que se tornaram destaque nessa época, mas também as obras que possibilitaram o transporte coletivo chegar da Praça Municipal até o Farol da Barra. Até o Largo da Vitória, o bonde tinha acesso fácil, mas atingir o nível do mar era outra história. Utilizou-se a solução da cremalheira pela via interna, passando por aproximadamente onde hoje é o hospital Português, sem, contudo obter o resultado desejado.

Continua-se na conclusão das obras das duas interessantes estradas que seguem para a Povoação da Barra, cumprindo agora com urgência mandar calçar os alveos lateraes da chamada estrada da Graça, afim de evitar o danno que devrão causar as agoas da chuva: a 2a Estrada, que se denomina de Santo Antônio, he feita debaixo da inspecção da Câmara Municipal que a paga: e ambas são construidas debaixo da direção do súbdito Inglez o padre Parker, que mostra bastante interesse pelos melhoramentos daquella parte da Cidade, nào se poupando à trabalho algum. (Francisco Gonçalves Martins, presidente da província, em Salvador em 1851).

A solução para o problema da Ladeira da Barra foi adotar uma redução do declive do antigo traçado. Essa redução consistiu num corte de meia encosta. Quem hoje desce a ladeira, verifica que do lado esquerdo existe uma elevação, de propriedade particular, contida por uma muralha de pedra “vista”, recente, que marca bem a situação deste corte. Para se abrir este caminho, alterações foram feitas de tal ordem, que o traçado foi modificado – este que tendia à direita de quem desce, a partir do morrinho da Igreja de Santo Antônio da Barra e passava em frente ao Forte de São Diogo, hoje tem seu final em linha reta até o Largo da Barra. Foi desse remanejamento que resultou um saldo de terrenos, onde um empresário fez a sua fábrica de xales (hoje sede do Iate Clube da Bahia), e a comunidade britânica conseguiu obter a compra e permissão para a instalação do cemitério anglicano.

FEBRE AMARELA E INSOLAÇÃO – A morte, na Bahia, de um comandante de navio inglês, e seu posterior enterro ao pé da bandeira do Forte de São Pedro, de acordo com o costume britânico, leva a crer que a localização do primeiro cemitério inglês era nas imediações do Campo Grande. Para a instalação definitiva do seu cemitério, a comunidade britânica obteve a permissão do Conde dos Arcos. Permissão, na realidade, conseguida não só pelos ingleses, mas por diversos setores da sociedade (como ordens terceiras), a partir das novas leis sanitárias que cobravam medidas do governo acerca dos seus enterramentos e custos, lembrando o governo do decreto de 1828, que estabelecia a responsabilidade da Câmara de encontrar soluções definitivas para tais eventos.

Esse cemitério teve seu auge quando aqui se implantou a construção da rede ferroviária, que terminou por vitimar dezenas de cidadãos ingleses, a maioria engenheiros ou técnicos da companhia férrea, de yellow fever ou sun stroke (febre amarela e insolação, respectivamente) como causas mais comuns de óbitos, além das causas naturais ou acidentes decorridos em uma época de condições insalubres de trabalho. O que dá ao cemitério não só uma importância arquitetônica e urbanística, como também uma notável importância social. Mesmo naquela época, ele era reconhecido ponto visual da cidade.

A expectativa da chegada próxima empolgava todos à bordo; até a própria São Sebastião, aliviada de sua carga de carvão, parecia compartilhar do entusiasmo geral, quando aproou para o farol de São Salvador. Lenta, mas, constantemente, o promotório sobre o qual se eleva a cidade parecia surgir das ondas, à medida que nos aproximávamos. De repente, avistámos o perfil das Tôrres e das cúpulas. Logo depois conseguimos distinguir nitidamente o convento de Santo Antônio, a Igreja da Vitória e os muros do cemitério dos Ingleses. Já tínhamos entrado no pôrto, mas ainda nos achávamos bem longe do ancoradouro, quando a noite caiu sobre o cenário e, com ela, uma repentina rajada de vento, seguida de chuva. (...) Da praia sobe-se ao morro da Vitória, por um caminho coleante e passa-se junto ao cemitério dos ingleses que conquanto pequeno está lindamente localizado. A casa que residia o Sr. Parker era de pequenas proporções, mas caprichosamente disposta, com um amplo jardim em frente. Ao lado construíram um puxado que servia de capela. Aí podiam ser acomodadas oitenta ou cem pessoas. (Daniel Parish Kidder, em visita a Salvador em 1839).

É importante ressaltar a necessidade de um cemitério exclusivo para a comunidade britânica em terras brasileiras, devido à não possibilidade de enterramentos “não católicos” em solo católico. Notem que estamos falando de um evento sociopolítico de uma cidade que detinha o poder religioso no país e exercia grande influência política e social na época.

A presença inglesa em nossa cidade diminuiu, a ponto de não mais justificar a utilização de um cemitério privativo. Contudo, não se pode deixar de ressaltar a importância deste conjunto arquitetônico que terminou por definir o grau de identidade de um povo com outra cultura estrangeira na Bahia do século XIX.
 

Visão Privilegiada

A morte talvez seja um dos aspectos mais estigmáticos da natureza humana. Muito embora seja uma das poucas certezas da vida, ela é rodeada de mitos, rituais e reverências desde o surgimento do homem, ritos estes que perduram até hoje independente da natureza religiosa, financeira e racial. No final, a morte sorri para todos nós, sem distinção.

Talvez por esse motivo mesmo seja que muitos artistas tenham retratado a morte, ou as suas subseqüências, de maneira tão forte e tão pessoal, mexendo com aspectos sumamente complexos da natureza humana, tornando a sua representação nos cemitérios ao redor do mundo muitas vezes objeto de admiração. 

Aqui no Brasil, o hábito europeu de se incluir cemitérios nos roteiros turísticos começa a se esboçar frente ao reconhecimento do valor artístico (e muitas vezes histórico) que muitos túmulos possuem. Mesmo porque essas obras, em sua grande maioria, foram executadas por artistas de grande nome a exemplo das obras do escultor Victor Brecheret no Cemitério da Consolação em São Paulo, vistas entre outras sob a forma de passeio turístico. 

Neste caso, soma-se ao valor artístico, muitas vezes, o valor pessoal ou individual (às vezes coletivo) que cada indivíduo terminou por marcar no momento de sua morte em seu epitáfio, ou ainda em uma escultura representando uma passagem de algum momento pessoal, ou no curso de sua vida, pelos seus feitos.

O Cemitério dos Ingleses na Bahia talvez seja um bom exemplo disso. Representa uma fase de grandes mudanças econômicas, sociais, urbanas dentre outras. Não só a obra em todo o seu conjunto como seus túmulos, vistos separadamente, nos dão uma boa idéia disso.

Do ponto de vista de representatividade individual temos o caso de Edward Pellew Wilson, um dos comerciantes mais ricos da América Latina no seu tempo, ou o Doutor John Ligertwood Paterson, um dos fundadores da escola de Medicina Tropicalista na Bahia. Ambos os casos com túmulos de valor artístico considerável. O próprio Paterson tem uma escultura belíssima do seu busto no largo da Graça (antiga praça Dr. Paterson) como reconhecimento dos seus feitos aqui na Bahia. 

Contudo nem só de celebridades é que se fazia uma comunidade. Ainda neste cemitério poderemos encontrar exemplos do cidadão comum que muitas vezes dentro da sua rotina diária ajudou a formar não só a Comunidade Britânica como a comunidade soteropolitana, como a escultura feminina deitada do túmulo da Maria Constancia D’Araujo Freitas Ogilvie no final do cemitério ou ainda pequenas esculturas de anjos guardando docemente a paz que reina naquele sítio.

De uma forma geral, várias lápides ou placas contém inscrições com referência à vida de quem lá foi enterrado, ou ainda alguma citação religiosa relativa ao mesmo.

Como representatividade coletiva podemos citar as curiosidades de citações lapidares em homenagem aos cavalheiros britânicos que trabalharam na construção da  ferrovia Bahia and San Francisco Railway, no século XIX e que pereceram de yellow fever (febre amarela) e sunstroke (insolação), como tantos outros que da mesma forma se foram. Ainda podemos citar outras epidemias como as de cólera e tifo, tão comuns naquela época.

É difícil não se envolver na atmosfera desse cemitério onde existem 550 locações, em torno de 400 enterramentos e 350 túmulos cada um com uma história para contar (muitos deles passíveis de restauração), distribuídos em 3.370 metros quadrados de uma das melhores vistas da Baía de Todos os Santos, principalmente no final da tarde com o seu pôr do sol.

Mas talvez a maior representatividade coletiva, contribuição maior desta comunidade tenha sido um novo sentido econômico, social, urbanístico e comercial que passou a vigorar a partir da Abertura dos Portos de 1808, aliado a um dos aspectos mais característicos da Bahia e do Brasil, que é a pluralidade de suas culturas integrantes formando uma só nação, e entendendo que esse patrimônio não é só um patrimônio estrangeiro, mas nosso também no sentido em que quando olhamos para o nosso passado mesmo sob olhos estrangeiros projetamos o futuro (EC).
 
 

Ernesto Regino Xavier de Carvalho é arquiteto formado pela Ufba, onde cursa mestrado na área de restauro. Ele é o autor do projeto e um dos coordenadores do processo de restauração do Cemitério dos Ingleses da Bahia e co-autor do projeto "A Presença Britânica na Bahia".

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