História 
Uma tradição de dependência

Etelvina Rebouças Fernandes 

Desde o século XIII, sucederam-se pactos entre a Inglaterra e Portugal, cabendo sempre à Inglaterra a melhor parte. A partir de 1298, concedia-se salvo-conduto aos comerciantes portugueses na Inglaterra e aos ingleses em Portugal, além do direito de nomear um juiz conservadorpara resolver qualquer pendência entre eles. 

Em 1654, Cromwell impôs o acordo em que era franqueado à Inglaterra o comércio em todas as colônias portuguesas e a liberdade de religião e culto. Nenhum inglês podia ter seus bens confiscados pela Inquisição, ou ser preso em terras portuguesas, salvo em flagrante delito. Mesmo assim, estariam sob a jurisdição especial de um juiz conservador. Este convênio também dava à Inglaterra o monopólio de fornecer as embarcações de “que houvesse falta em Portugal”. Excetuava-se a Companhia do Brasil, à qual era concedido o direito de “contratar em outra parte naus de guerra e quatro mercantes para o transporte do bacalhau”. Segundo J. Lucio de Azevedo, “por aí começou o predomínio mercantil e político da nação britânica em Portugal”. 

Em 1661, o governo português assinou com a Inglaterra e as Províncias Unidas um tratado que obrigava Portugal a permitir que famílias dessas nações fossem residir em suas colônias: na Índia, em número ilimitado; na Bahia, Rio de Janeiro e Pernambuco, em número máximo de quatro famílias. Segundo Boxer, essas famílias eram olhadas com restrição pelos nativos e pelo governo dos países para onde iam: “Olhadas com ressentida desconfiança pelas autoridades locais, essas poucas privilegiadas famílias estrangeiras na Bahia tinham mínima possibilidade de florescer e criar raízes sociais, fossem quais fossem os benefícios materiais que seus lucros comerciais lhes trouxessem”.

Essa era a situação até o início do século XIX. Em Portugal, o marquês de Pombal classificava o inglês como “hóspede parasita”. Continuando a série de tratados entre Portugal e Inglaterra, os portugueses assinaram, em 1703, o Tratado de Methuen, impondo, mais uma vez, a Portugal uma série de restrições, dessa vez, relativas ao monopólio do comércio da lã produzida na Inglaterra e do vinho português. “A lã utilizada em Portugal só poderia ser adquirida, para sempre”, na Grã-Bretanha, “em troca obrigava-se a receber, também para sempre, os vinhos portugueses pagando estes dois terços do imposto cobrado aos vinhos franceses”.

ABERTURA DOS PORTOS – Em 23 de janeiro de 1808, o príncipe regente de Portugal, D. João, chega ao Brasil, ao porto da Baía de Todos os Santos, trazendo a possibilidade do contato mais próximo com o modo de vida da Corte, e, para a Bahia, a condição, mesmo que por apenas um mês, de centro político da metrópole. 

O príncipe partiu de Portugal em novembro de 1807, escoltado pela esquadra inglesa. Antes da partida de Lisboa, o representante do governo inglês, Lord Strangford, ter-se-ia reunido com o ministro dos Estrangeiros, Antonio de Araújo de Azevedo, definindo, provavelmente, toda a estratégia para facilitar à Inglaterra o comércio com o Brasil. Se a Corte não tomasse essa decisão, o almirante Sidney Smith, comandante da esquadra inglesa, “não deixaria sair do Tejo a esquadra portuguesa” (AZEVEDO, 1978, p. 452). 

Calmon atribui o mérito da “abertura dos portos do Brasil às nações amigas”, cinco dias após a chegada da Corte, ao empenho do jurisconsulto e economista baiano José da Silva Lisboa, que teria conseguido convencer o Conde da Ponte a enviar correspondência para o príncipe regente e passar às suas mãos o texto produzido por J. S. Lisboa, “Observações sobre a abertura dos portos do Brasil”.

Não se pode negar a importância de José da Silva Lisboa e a predisposição do governo da Colônia em liberar os portos ao comércio internacional; porém, a série de tratados assinados por Portugal, que o submetiam ao poder da Inglaterra, induz a se aceitar o argumento de Boxer e Azevedo de que houve uma grande pressão sobre a Corte, ainda em Portugal, para que o predomínio dos ingleses se mantivesse no Brasil.

A tradição de dependência da Inglaterra manteve-se no Brasil, ratificada com a assinatura do tratado de 26 de fevereiro de 1810, que protegia importações de manufaturas provenientes do Reino Unido, com taxas diferenciadas de 15%, enquanto os outros países pagavam 24% sobre os seus produtos. Até os próprios portugueses pagariam 16%. Desse modo, os privilégios dados à Grã-Bretanha reafirmavam a condição de submissão de Portugal.

A tentativa de industrialização do Brasil esbarrava sempre em uma série de obstáculos de ordem política e social. A idéia dos brasileiros liberais os aproximava dos fisiocratas franceses inspirados em Quesnay, que consideravam a terra como a única fonte de riquezas. Esta corrente teve como representante, no Brasil, o jurisconsulto José da Silva Lisboa, o Visconde de Cairu.

PRIVILÉGIOS E INCENTIVOS – A economia brasileira era essencialmente mercantilista, crescia em torno da produção agrícola. A opção pela agricultura para o desenvolvimento do Brasil refletia os interesses dos grandes proprietários de terras que dominavam a política e a economia nacional, em consonância com os interesses da metrópole, submissa ao domínio inglês, cujo poder ainda se mantinha sobre as decisões políticas e econômicas da Casa de Bragança.

As facilidades de comércio e a liberdade para professarem o protestantismo na colônia portuguesa, onde o catolicismo era a religião oficial, além de outras vantagens oferecidas aos ingleses, estimularam a vinda de muitos deles ao Brasil no início do século XIX, em busca de fortuna no rico país tropical. Com esse espírito, aportaram na Baía de Todos os Santos, no decorrer do século XIX, muitos estrangeiros que vinham para a Colônia tentar a sorte, expandir seus negócios, ou por motivos religiosos. O intuito missionário foi também motivo da imigração: “Os anglicanos entraram no País como comerciantes nas grandes cidades e os luteranos, como colonos no interior da região sul da Bahia” (SILVA, 1998, p. 24).

Os cônsules da Inglaterra enviavam com freqüência ofícios às autoridades locais cobrando os privilégios concedidos aos seus conterrâneos, pelos tratados assinados com Portugal, inclusive o de 1810, que os encorajou a se estabelecerem no Brasil. Estas correspondências criaram conflitos, entre os cônsules e o governo, como ocorreu, em 1812 na Bahia, com o Conde dos Arcos.

A presença do protestantismo no Brasil ocorreu na primeira metade do século XIX e a instalação da Igreja Anglicana teria acontecido na Bahia, em data anterior a 1821. Além dos ofícios religiosos, a igreja foi fundada para difundir o protestantismo, dar apoio à comunidade inglesa estabelecida na Bahia, fortalecendo a união do grupo. Maria Graham, em sua visita à Bahia em 1821, registrou a liberdade de culto dada aos britânicos, cumprindo o que estava estabelecido no tratado assinado por D. João VI.

MERCADO CONSUMIDOR – A comunidade inglesa na Bahia, no período compreendido entre os anos 1839 e 1850, era composta de negociantes, em torno de 38%, e 42% de mão-de-obra a ser empregada por esses comerciantes. Além disso, havia uma minoria dedicada a outros ofícios, como caixeiros, relojoeiros, funileiros, lavradores, sapateiros, retratistas, médicos, tecelões, religiosos, um engenheiro e um funcionário do Consulado.

Nesses locais, a comunidade britânica se reunia para discutir assuntos relacionados aos seus interesses, políticos e econômicos, na cidade do Salvador. Os negociantes ingleses auferiram altos lucros na Bahia e transitavam com muita influência na alta sociedade baiana. Dedicavam-se ao comércio internacional, às indústrias, ao setor financeiro e à construção e exploração das estradas de ferro desde os meados do século XIX.

A chegada de estrangeiros e da Corte concorreu para mudar, profundamente, os hábitos da população brasileira. Os ingleses influenciaram nessa mudança. No vestuário sóbrio ,com o uso de jaquetas de lã, chapéus, luvas, calças de montaria, moda européia que atingia apenas a classe abastada da sociedade. Os escravos ficavam restritos aos panos de algodão grosseiro, fabricado nas indústrias têxteis nacionais, que era uma indumentária mais condizente com o clima tropical.

Os modos à mesa passaram a ser copiados e as louças inglesas, em branco ou branco e dourado nas bordas, gradualmente substituíam a colorida porcelana oriental. Na alimentação, os ingleses influenciaram no hábito de tomar o chá, de forma prazerosa, consumido às tardes em reuniões sociais; comer pão fabricado com farinha de trigo; biscoitos e bolachas que chegavam de Londres ao País, muitas vezes “avariados”.

Na construção, introduziram o uso do ferro e do vidro, estimulados pelo decreto de D. João, que condenou as rótulas e gelosias por não permitirem ao sol penetrar nas casas. Apesar do pressuposto da saúde pública e da segurança, havia, além de tudo, uma intenção comercial no propósito de escoar a produção industrial inglesa, cuja demanda na Europa já se encontrava saturada. O Brasil sempre foi visto pela Inglaterra como mercado consumidor de produtos das indústrias britânicas, o que estimulava a vinda de muitos aventureiros a buscarem riquezas na rica colônia portuguesa da América Latina.

ESTRADAS DE FERRO – O secretário do presidente da província faz referência ao engenheiro Carlos Augusto Weyll, em 1853, compondo o “quadro dos engenheiros da Província da Bahia”, como encarregado do encanamento do rio das Tripas, e da rua da Valla, dos melhoramentos da rua do Bom Gosto, dos consertos do cais de Água de Meninos, entre outras obras na Cidade do Salvador. Há também uma referência ao polaco André Prewodowski, como responsável pela obra da ponte da Alfândega, da estrada das Boiadas, da fonte artesiana na cidade de Santo Amaro e de outras estradas no interior do Estado. Informa o escritor Figueiredo Filho que o Campo Grande foi projeto de Carlos Augusto Weyll, onde provavelmente já existia o templo inglês e “uma agradabilíssima casa térrea da chácara do Club Inglês”.

Entre 1858 e 1880, chegaram à Bahia 29 engenheiros – entre eles, quatro trabalhavam na estrada de ferro e dois eram telegrafistas, entre outras profissões. O aumento do número de engenheiros deveu-se à demanda desses profissionais para a construção das estradas de ferro que tiveram início na Bahia, a partir de 1858. A exemplo de Charles Blacker Vignoles, engenheiro ferroviário, muito conceituado na Inglaterra, participou da construção da estrada de ferro de Manchester a Liverpool, em 1826. Chegou à Bahia para fiscalizar a obra da estrada de ferro, cujo projeto foi elaborado por ele, a Bahia and São Francisco Railway, em 1858, e ocupou o cargo de engenheiro-chefe dessa ferrovia de 1865 a 1875. Além dele, outro inglês, John Watson elaborou em Londres o projeto da primeira estação ferroviária da Bahia, na Calçada. Foi também empreiteiro das obras de aterro da Calçada para implantação da estrada e da estação. 

Richard Tiplady veio para a Bahia para trabalhar em estradas de ferro, a convite de Hugh Wilson, que recebeu do governo a concessão para a construção da estrada de ferro da Bahia a Cachoeira. Tiplady trabalhou na estrada de ferro Bahia and São Francisco Railway, como engenheiro-chefe, de 1875 a 1880. William C. Buckingham trabalhou na mesma estrada, em 1875, e estabeleceu-se em Salvador no antigo arrabalde de Itapagipe.

O engenheiro inglês Hutton Vignoles tem sua presença marcada na Bahia, em 1850-1854, como responsável pelos estudos topográficos da estrada de Santo Amaro e na construção, em 1855, de uma estrada para ligar a cidade de Nazaré com o litoral. Em 1859-1863, foi engenheiro-chefe das obras da estrada de ferro Bahia and San Francisco Railway sob supervisão de Charles Vignoles, participando ainda de investimentos no setor de transportes com representantes da sociedade baiana como Antonio Pedroso de Albuquerque, Francisco Gonçalves Martins e Antonio Pereira Franco na direção da Companhia de Navegação Bahiana. Em 1860-1861, esta empresa colocou os vapores à disposição do governo, para transportar víveres, em socorro à calamidade da seca que assolou o sertão da Bahia, em 1860. 

CORREDOR DOS INGLESES – Os ingleses ocupavam lugar de destaque na Cidade do Salvador oitocentista. Fizeram parte de associações e importantes corporações que decidiam a situação política e econômica da província da Bahia, como a Associação Comercial, fundada em 1840. Foram membros da diretoria Archibald Mac Nair, sócio da Companhia Fabril de Fiais, de que participou da direção, em 1880; J. F. Steel, na década seguinte; e Frederick Been e Hugo Been, que também fizeram parte da direção da Associação. A grande maioria morava na freguesia da Vitória e alguns, como o reverendo Edward George Parker, também mantinham casas de campo no Rio Vermelho ou Montserrat.

Edward Wilson, engenheiro que se associou a outras figuras da sociedade baiana para financiar a construção da ponte metálica que liga a cidade de Cachoeira a São Félix pela via férrea, era filho do comerciante escocês, de quem herdou o nome. O pai, Edward Pellew Wilson, chegou ao Brasil por volta de 1820, após sobreviver ao naufrágio do brigue em que viera. Encantou-se com a Bahia, aí se estabelecendo, instalando no porto um escritório de importação e dedicando-se aos negócios de navegação e ao comércio de carvão. Criou a Wilson, Sons, hoje uma empresa de navegação brasileira sediada no Rio de Janeiro.

Por fim, tornou-se um grande negociante do ramo da importação e exportação e construiu uma casa no Campo Grande, com jardins voltados para o poente, com vista para o mar da Baía de Todos os Santos. Edward Pellew Wilson viveu nesta casa até sua morte, sendo enterrado no Cemitério dos Ingleses em 1897 com um belo túmulo de mármore de Carrara. Este local passou a ser ponto de referência para os ingleses que se estabeleciam na Bahia. Mais tarde, este casarão foi cedido à arquidiocese da Bahia em uma transação comercial para a construção de uma linha de bonde que necessitava da demolição da igreja seiscentista, a antiga Sé da Bahia, situada no centro antigo da Cidade do Salvador. Nesta casa, instalou-se o Palácio Cardinalício. 

Havia, na Vitória, um hospital para atender a comunidade inglesa e, na Ladeira da Barra, em torno de 1814, foi construído um cemitério para os ingleses, já que não podiam ser enterrados nos cemitérios que existiam na cidade, por não serem católicos, batizados. 

O Campo Grande, a Vitória e o Canela eram os bairros arejados para onde se expandiu a cidade, no século XIX, e onde foram morar os estrangeiros e a população mais abastada. Aí se implantaram as chácaras com casarões construídos em estilo eclético, com acabamento refinado. O príncipe Maximiliano, em sua viagem à Bahia em 1860, se refere à Vitória como um local aprazível da cidade. 

Médicos ingleses chegaram à Bahia, como o Dr. John Ligertwood Paterson, famoso por sua dedicação ao povo pobre da cidade em que viveu por 40 anos, entre 1842 e 1883. Seus amigos, colegas e clientes se reuniram e mandaram construir um monumento em sua homenagem no Largo da Graça, quando faleceu. Outro médico inglês, o Dr. Jonathan Abbott, veio para a Bahia com 16 anos e se formou em medicina na Academia Médico Cirúrgica da Bahia, contribuindo para o desenvolvimento da medicina no Brasil.

Bibliografia:
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·  FREYRE, Gilberto. Ingleses no Brasil: aspectos da influência britânica sobre a vida, a paisagem e a cultura do Brasil. Rio de Janeiro: José Olympio, 1948.
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·  HABSBURGO, Maximilianno. Bahia 1860: esboços de viagem. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro; Bahia: Fundação Cultural do Estado da Bahia 1982.
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·  SILVA, Elisete da. Cidadãos de outra pátria: anglicanos e batistas na Bahia. Tese (Dotourado em História) - Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 1998.
·  VIGNOLES, Keith H. Charles Blacker Vignoles: The Romantic Engineer, Cambridge ; Nova York : Cambridge University Press, 1982.
·  WANDERLEY, João Mauricio. Falla recitada na abertura da Assembléa Legislativa da Bahia pelo Presidente da Província o Doutor João Mauricio Wanderley no dia 1º de Março de 1855. Bahia: Typographia de A. Olavo da França Guerra, 1855.

Etelvina Rebouças Fernandes, arquiteta graduada e mestre em Arquitetura e Urbanismo pela Ufba, dedica-se à restauração de monumentos históricos desde a década de 1970 no Estado da Bahia. Recebeu menção honrosa na Bienal de São Paulo, em 1999, pelo projeto da Praça das Artes no Pelourinho. Texto extraído da sua dissertação de mestrado, Do Mar da Bahia ao Rio do Sertão: Bahia and San Francisco Railway (2005), e adaptado por Sabrina Gledhill e Ernesto Carvalho.

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