História 

3 de dezembro de 2005

Destino de grandes e pequenos 

Sabrina Gledhill

Informou-me que subir na vida através dos empreendimentos era, de um lado, o caminho de homens de destinos desesperados ou, de outro lado, homens de aspirações e destinos superiores, que se tornam famosos pelas suas realizações descomunais 

(Daniel Defoe, in Robinson Crusoé) 

O estrangeiro, o outro lado do mundo, desde seu descobrimento, esta parte do planeta foi vista pelos europeus como um lugar de perigos e oportunidades. Os ingleses, presos por séculos a um sistema de classe que só valorizava aqueles que viviam de renda, menosprezando o comerciante e vendo o operário como escória, tinham poucas oportunidades de ascensão social. 

Um pobre, homem ou mulher, condenado ao degredo por furto ou roubo. Alguém que nasceu em berço de ouro, mas sem direito a herança por ser o irmão mais novo do morgado. O segundo ou terceiro filho de um comerciante, designado a estudar direito ou medicina, que se rebelava contra seu destino. Um homem infeliz no amor. Um homem pobre, mas culto, procurando construir um patrimônio que o deixaria livre para se casar e formar uma família. Um caixeiro ou agricultor. Um engenheiro. Um naturalista, artista ou fotógrafo. Um médico. Um religioso. Um marujo ou oficial na marinha mercante ou na Real Marinha Britânica. Uma mulher acompanhando seu cônjuge ou seus pais, mas também aquela que, por qualquer motivo, resolveu “dar a volta ao mundo”. Além dos grandes comerciantes e empresários ingleses, que vieram enriquecer – e enriqueceram – aqui, todos estes cidadãos comuns fizeram parte das sucessivas levas de emigrantes britânicos que enfrentaram os perigos para buscar uma vida melhor em terras tropicais. Alguns foram espelhados em personagens de ficção.

A literatura inglesa está repleta de histórias de viajantes e de imagens do Novo Mundo e mais especificamente do Brasil como o destino dos irrequietos e empreendedores. Encontramos uma das mais conhecidas – vinda de um livro amplamente difundido – em Robinson Crusoé (1719), onde, depois de muitos sofrimentos, a personagem titular vive seu happy ending graças à fortuna que acumulou com sua fazenda no Brasil, mesmo padecendo 27 anos numa ilha deserta. Para o autor, Daniel Defoe, escrevendo no início do século XVIII, a América era um lugar de perigos, mas também uma fonte de riqueza que podia ser usufruída até a distância.

Em O morro dos ventos uivantes (1847), de Emily Bronte, o protagonista Heathcliff sai da Inglaterra desgostoso e volta um homem rico, disposto a vingar-se de todos que o humilharam e da mulher que o desprezou. A origem de sua repentina fortuna nunca é esclarecida, mas uma coisa fica clara – ainda em meados do século XIX, a solução que a autora escolheu para fazer um personagem pobre enriquecer da noite para o dia foi uma viagem para o estrangeiro.

Uma história mais realista faz parte do romance A mulher vestida de branco (1861), de Wilkie Collins. Um dos narradores, um professor de desenho artístico, se junta a uma expedição à América Central como desenhista para esquecer um amor impossível (mesmo sendo de boa família, ele não pode se casar com uma rica herdeira, porque seria considerado um gigolô). Ao invés de voltar rico, tem sorte de retornar com vida depois de sobreviver aos três maiores perigos de qualquer viagem para o Novo Mundo no oitocentos – ataques indígenas, doenças e naufrágios. Publicados em série, como as obras de Dickens, os romances de Collins eram a coqueluche na Inglaterra e de ingleses expatriados no mundo todo – os vitorianos enfrentavam filas quilométricas para comprar o próximo capítulo.

CONDIÇÕES VANTAJOSAS – Já no final do século XIX, no romance Tess (1891), o autor Thomas Hardy escolhe justamente o Brasil como o lugar para onde Angel Clare foge quando descobre que sua esposa, Tess, fora violentada por um suposto parente. Nas suas andanças, ele observou nos arrabaldes de uma cidadezinha um cartaz vermelho e azul que proclamava as grandes vantagens do Império do Brasil, como campo para o agricultor emigrante. A terra lá era oferecida em condições excepcionalmente vantajosas. O Brasil atraiu-o como uma idéia nova. A Tess poderia juntar-se a ele lá algum dia, e talvez nesse país de cenários, noções e hábitos diferentes as convenções não fossem tão influentes que lhe tornassem impraticável a vida com Tess. Em suma, estava intensamente inclinado a tentar o Brasil, ainda mais porque a ocasião mais propícia de ir para lá se aproximava.

Angel Clare supera o preconceito dos pais evangélicos e parte para aquela terra “papista” cheio de esperança. Infelizmente, as realidades e os perigos dos trópicos para o emigrante incauto – inclusive a febre amarela e a “febre intermitente” (malária) – acabam com o sonho de enriquecimento e esquecimento. As cartas de Tess chegam até os confins do país e chamam Angel Clare de volta à Inglaterra, mais morto do que vivo.

O pai, também, ficou chocado ao vê-lo, tão reduzida estava aquela figura dos seus contornos antigos pela preocupação e pela má estação que Clare tinha vivido, num clima para o qual ele fugira tão precipitadamente (...) Podia ver-se o esqueleto por trás do homem, e quase o espectro por trás do esqueleto. Igualava-se ao Christus morto do Crivelli. As órbitas afundadas tinham uma tonalidade mórbida e o brilho se esmaecera dos olhos. As cavidades angulosas e as rugas de seus idosos antepassados reinavam no seu rosto 20 anos antes de seu tempo. 

As histórias de Sherlock Holmes, escritas por Sir Arthur Conan Doyle na virada do século, contêm vários casos de ingleses e norte-americanos que não somente enriqueceram como casaram no estrangeiro. Para o autor, estes enlaces com mulheres tropicais também tinham seus perigos. No conto intitulado “O problema da Ponte de Thor” (1927), a suposta vítima de assassinato é uma brasileira, a esposa maltratada de um senador norte-americano chamado Neil Gibson, “o Rei do Ouro”, que a conheceu em Manaus quando “andava pelo Brasil, em busca de ouro”. Ela é descrita assim: “Era uma criatura dos trópicos, nascida no Brasil (....) Tropical por nascença, de natureza tropical. Filha do sol e da paixão. Ela amou-o como este tipo de mulher sabe amar, mas quando seus atrativos físicos – e dizem que já foram consideráveis – se esvaeceram, não havia mais nada que o prendesse a ela”.

Em contraste, a suposta assassina é uma jovem e bela governanta, Srta. Dunbar – a flor da castidade e da espiritualidade; uma rosa inglesa. No final, o famoso detetive descobre que, por ciúmes, a Sra. Maria Pinto de Gibson planejou sua própria morte, justamente para incriminar a inocente Srta. Dunbar.

A experiência fictícia do Gibson reflete o pensamento do autor inglês que escreveu com o pseudônimo de “Jacaré Assu” sobre os perigos da miscigenação dos ingleses e outras “raças”: “Vamos manter esta conexão (econômica), que já é bastante estreita, mas evitar que nos leve além dos limites dos relacionamentos puramente platônicos. Vamos festejar os laços comerciais que nos unem e os lucros sólidos que cada um gera para o outro... mas devemos rebelar antes de aceitar a mistura de duas raças antagônicas que produziria objetos de mútua repreensão e censura... Desta maneira, evitaremos a tendência de deslizar da base segura das relações amistosas... para os agrados sedutores de uma ligação que só pode resultar numa prole de ingleses crioulos ou até ‘vira-latas’, exemplos depauperados da insensatez dos pais.” (“Jacaré Assu”, 1873).

Físico e mental – Tanto na ficção e nos estudos supostamente científicos, muitos autores ingleses forneceram uma visão distorcida dos trópicos e sua influência na raça e na alma humana. Por exemplo, o historiador e sociólogo Henry Buckle (1821-1862), que nunca pisou no Brasil, fez uma análise detalhada da influência do clima tropical que chegou a ser traduzido ao português por Sílvio Romero.

Em seu livro lançado em 1857, Introduction to the history of civilization in England, Buckle afirmava que o progresso da civilização européia marcava-se pela influência cada vez menor do mundo natural, e, na Europa em geral e na Inglaterra em particular, as forças mentais acabariam por sobrepujar às condições físicas. No entanto, negava tal fato para os demais continentes, nomeadamente para o Brasil, país que estaria acima de qualquer outro no que se refere à abundância de vida natural e onde a grandiosidade da natureza não deixaria espaço para o homem que, por isso mesmo, estaria condenado a viver eternamente em condições primitivas.

Portanto, muitos ingleses tiveram uma imagem do Brasil que chegou a ser ironizada assim por James W. Wells, um engenheiro inglês que morou muitos anos neste país: “Para a maioria do povo britânico, o Brasil é uma daquelas repúblicas sul-americanas, tá sabendo, localizada em algum lugar da América do Sul, propensa a revoluções, terremotos e Yellow Jack (febre amarela) e tudo mais, tá sabendo? E por incrível que pareça, tem um imperador que acorda absurdamente cedo... e os brasileiros são espanhóis”.

Verossímeis ou não, contos, romances e relatos sobre aventuras no estrangeiro ajudaram a incentivar muitos ingleses a tentarem a sorte no Brasil na vida real, principalmente no século XIX, depois da abertura dos portos em 1808. Alguns voltaram ricos, outros, doentes e pobres, mas alguns ficaram aqui – enterrados no Cemitério dos Ingleses da Bahia e outros campos santos, vítimas de doenças como a cólera morbus, febre amarela, tifo e até de insolação, ou encantados pela terra e seus “filhos do sol e da paixão”. Descartando os conselhos de “Jacaré Assu”, estes casaram, tiveram filhos e netos, e hoje, como resultado, uma grande porção da sociedade baiana tem ancestrais e até sobrenomes britânicos como Buckingham, Hughes, Marback, Paterson, Wilson e muitos outros que já se tornaram brasileiros.

Ingleses e malês 

Quando se estabeleciam na Bahia no século XIX, os “ingleses” – um termo que abrange nativos da Inglaterra, Escócia, País de Gales e Norte da Irlanda – gostavam de preservar seus costumes. Para eles, tratava-se de uma maneira de manter sua identidade nacional e cultural. Mesmo assim, em alguns casos, tiveram que ceder aos costumes locais, principalmente no que se referia à questão de mão-de-obra. Os integrantes das classes média e alta não podiam viver sem copeiros, pajens, cavalariços, cozinheiras, mucamas e outros criados, mas a maneira mais econômica de tê-los era a aquisição de escravos.   Portanto, no decorrer do século XIX, muitos ingleses radicados na Bahia eram senhores de escravos, enquanto os cruzeiros da marinha real da Grã-Bretanha caçavam e aprisionavam navios negreiros até nos portos brasileiros. As colônias britânicas usaram e abusaram da mão-de-obra escrava até 1834, mas, na pátria-mãe, o costume predominante era diferente – os criados eram livres, mas reprimidos por uma rígida hierarquia social que os relegava aos escalões mais baixos.

Para muitos ingleses, outra adaptação foi mais difícil e quase impossível de fazer: adotar a religião de um país “papista”. Desde os tempos do rei Henrique VIII, a Inglaterra e depois a Grã-Bretanha tem sido um país protestante. O rei ou a rainha é o líder da Igreja Anglicana. Havia e há ingleses católicos, judeus e mais recentemente muçulmanos, sem falar das várias seitas do protestantismo, mas a religião predominante entre a comunidade britânica na Bahia era o anglicanismo. Em vida, era até possível viver como os vizinhos escravocratas, quando no país de origem a opinião pública exigia o fim da escravidão, mas, na morte, tinham que ser enterrados segundo os rituais da Igreja Anglicana.

Duas obras do historiador João José Reis – Rebelião Escrava no Brasil e A Morte é uma Festa – demonstram estes aspectos da experiência britânica na Bahia. A primeira, sobre a Revolta dos Malês, em 1835 – um ano depois que o parlamento britânico aboliu a escravidão no seu império –, revela que os proprietários de alguns dos cabeças do levante eram ingleses. Chamados “os malês da freguesia da Vitória”, os revoltosos incluíam “seis escravos do inglês Joseph Mellors Russell”. 

Segundo o depoimento do escravo nagô Antônio, “na noite do dia 24 de janeiro (...) o chamara o dito João, acompanhado do moleque Joãozinho do mesmo Senhor José Mellors, e levando o Réu à despensa da casa neste lugar convidaram para entrar em um folguedo de matar branco, tudo ao que já se achava ali reunido no quarto dele João e na porta do mesmo quarto os pretos do mesmo Mellors da casa (comercial) do Forte de São Pedro, e outros muitos conjuntamente com um escravo da mesma casa que reside no escritório (...) a fim de que pela meia-noite executassem o seu folguedo”.

INDULGÊNCIA – O inspetor do quinto quarteirão da Vitória “contou ter visto vários dos escravos fregueses de suas rondas diárias” e reconheceu os “ditos pretos que vinham com outros do lote da Vitória, armados de espada e vestidos de branco (...)”. Já o cônsul britânico “calculou em oitenta o número destes guerreiros (...) Alguns foram feridos (...) entre os quais Pedro, escravo nagô do Dr. Robert Dundas, um médico inglês. Pedro teve a perna fraturada por um balaço”. 

A devassa que se seguiu à tentativa de revolta e sua repressão brutal revelou que, em parte, o levante foi tramado durante reuniões noturnas realizadas na freguesia da Vitória. A suposta indulgência no trato dos escravos por parte dos ingleses foi duramente criticada, mas o autor não aprova esta interpretação. Assim como os brasileiros, havia ingleses mais e menos severos. “Mas a mobilização dos escravos da Vitória deve ser atribuída sobretudo a fatores alheios a um suposto liberalismo inglês”: a comunidade britânica era bastante unida e coesa, preferindo morar na mesma vizinhança e freqüentar os mesmos círculos sociais. “Os malês aproveitaram-se disso com competência, e o Islã floresceu admiravelmente no esplêndido promontório que formava a espinha dorsal da freguesia de Nossa Senhora da Vitória, onde residiam com seus senhores”.

Em A Morte é uma Festa, uma análise dos costumes fúnebres da Bahia do Oitocentos, usando como ponto de partida a Cemiterada, vemos que a instalação do Cemitério dos Ingleses antecipou em quase duas décadas a abertura do Campo Santo, que resultou num dos mais notórios quebra-quebras da história da Bahia em 1836. Antes disso, com poucas exceções, os baianos católicos eram enterrados nas igrejas. A única opção para estrangeiros protestantes era construir seus próprios cemitérios ao ar livre, uma saída que a sociedade baiana reservava para enterros de escravos e marginais:

Antes da década de 1830, parece que, além dos escravos jogados no Campo da Pólvora, só os ingleses possuíam cemitério afastado da cidade (o cemitério da Massaranduba começaria a funcionar em 1833) (....). Seu lugar definitivo seria a Ladeira da Barra, onde se encontra até hoje. Neste cemitério eram também enterrados outros protestantes europeus e norte-americanos (SG).

BIBLIOGRAFIA

A Morte é Uma Festa (1991) e Rebelião Escrava no Brasil, A História do Levante dos Malês em 1835 (2003), de João José Reis. São Paulo: Companhia das Letras.

Sabrina Gledhill é brasilianista. De nacionalidade inglesa, recebeu o mestrado em Estudos Latino-Americanos da UCLA em 1986 e mudou-se para a Bahia no mesmo ano. Co-autora do projeto "Presença Britânica na Bahia", realiza pesquisas históricas e antropológicas, ao mesmo tempo em que desenvolve carreira como tradutora no Brasil e no exterior. Projeto de pesquisa de sua autoria foi finalista do Prêmio Clarival do Prado Valladares em 2005.

Site do Projeto Presença Britânica e Cemitério dos Ingleses

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